Do CSGO ao Brasil: o percurso de DFX como treinador de Counter-Strike
Entrevista27 de outubro de 20264 min leitura

Do CSGO ao Brasil: o percurso de DFX como treinador de Counter-Strike

Da descoberta do jogo à experiência no cenário brasileiro, Dfx falou ao Guitcho Hub sobre as dificuldades de encontrar oportunidades em Portugal, a instabilidade dos esports e o trabalho que existe para lá dos resultados.

Começou a jogar Counter-Strike por diversão, mas rapidamente percebeu que o seu interesse ia além das partidas. Sem ter na mira o seu principal ponto forte, encontrou na componente tática uma forma de se destacar. O que começou com funções de IGL em equipas amadoras acabou por se transformar numa aposta na carreira de treinador.

Em entrevista ao Guitcho Hub, Dfx recorda os primeiros passos no CSGO, explica como chegou ao Brasil e partilha a sua visão sobre os desafios de construir uma carreira nos esports.

- Guitcho Hub: Como começaste a jogar Counter-Strike e quando percebeste que querias ser treinador?

dfx: "Comecei a jogar CS no final de 2016, por lazer e para passar tempo com amigos. Fui subindo de rank até chegar ao nível 10 da FACEIT e percebi que gostava mesmo muito do jogo.

Em termos de mira, fiquei sempre um pouco atrás dos meus amigos, mas interessava-me bastante pela parte tática. Acabei por assumir funções de IGL em algumas equipas amadoras e, mais tarde, conheci o JTR, que também estava a começar como treinador.

Foi através dele que percebi que podia estudar e aprender muito mais sobre o jogo. Acabou por me ajudar a entrar nos Agency Clan, onde tive a minha primeira experiência. Não correu nada bem, mas foi aí que percebi que queria seguir a vertente tática e ser treinador."

Guitcho Hub: Como foram as primeiras experiências e que dificuldades encontraste no cenário português?

dfx: "Foram experiências muito positivas. Tinha muita vontade de vencer e, apesar de serem maioritariamente derrotas, isso motivava-me a aprender e a perceber como podia ajudar a equipa a melhorar.

A maior dificuldade foi, sem dúvida, a falta de aposta no cenário português, e não falo da parte financeira. É um cenário muito baseado em amizades, onde raramente se dão oportunidades aos mais novos para mostrarem o seu trabalho. Muitas vezes, prefere-se alguém conhecido a uma pessoa que possa trazer ideias novas."

Guitcho Hub: Como surgiu a oportunidade de trabalhar no Brasil?

dfx: "Entrei no cenário brasileiro através de mensagens e pedidos de oportunidade. Contactei vários treinadores e managers para tentar trabalhar como assistant coach ou analista, mostrar o meu trabalho e dar-me a conhecer.

Tive a sorte de o exp, atual analista da 9z, me dar uma oportunidade na Swingers, que na altura competia sem organização. Aprendi muito com ele e, mais tarde, conseguimos entrar na Vivo KeyD Stars, onde continuei a trabalhar, apesar de nunca ter sido apresentado oficialmente.

Algum tempo depois, a organização decidiu dispensar toda a equipa. Foi nessa altura que recebi uma proposta da Bounty Hunters para assumir o projeto da Academy, que aceitei.

A mudança para o Brasil foi totalmente positiva e deu-me esperança de conseguir fazer disto vida. Se o exp não me tivesse dado aquela oportunidade, tenho dúvidas de que ainda estivesse no ativo."

Guitcho Hub: Que diferenças encontraste entre o cenário português e o brasileiro?

dfx: "A principal diferença que senti foi a vontade de aprender e a forma como as pessoas recebem feedback.

Na minha experiência, em Portugal existe muito ego e alguma dificuldade em aceitar erros ou opiniões diferentes. No Brasil também acontece, mas senti isso numa escala menor."

Guitcho Hub: Atualmente, é possível viver do Counter-Strike?

dfx: "Atualmente, a maior parte do meu rendimento vem do CS, mas não é a minha única fonte de rendimento.

Viver do CS é muito complicado. Existem organizações que prometem valores que depois não conseguem pagar... felizmente, não é o caso da Bounty Hunters! Embora sinta que haja uma instabilidade constante, porque estamos muito dependentes dos resultados.

Ou conseguimos atingir os objetivos definidos pela organização, ou corremos o risco de ficar sem equipa e sem rendimento. Estamos constantemente à procura de melhorar e, a alto nível, essa pressão pode tornar-se desgastante."

Guitcho Hub: Que conselho darias a quem quer construir uma carreira nos esports? Olhando para trás, farias alguma coisa de forma diferente?

dfx: "O primeiro passo é ser muito autocrítico e saber ouvir feedback. É importante procurar pessoas com mais experiência, perceber o que fazemos bem, o que fazemos mal e onde podemos melhorar.

Para os jogadores, é simples: estudar, jogar e rever. Para os treinadores, estudar, aplicar e rever. Nas restantes funções, acredito que também passa por procurar opiniões e fazer uma autoavaliação constante.

Se pudesse voltar atrás, teria dedicado ainda mais tempo ao jogo. Hoje reconheço que, no início, não me dedicava tanto como me dedico agora.

Acima de tudo, é preciso ser persistente. Só dependes de ti para singrar e vencer. Se não fizeres por ti, mais ninguém o fará."

Guitcho Hub: O público vê sobretudo os resultados. Que trabalho e sacrifícios existem nos bastidores de uma equipa competitiva?

dfx: "As pessoas acabam por olhar para o resultado final: se a equipa ganhou, perdeu ou conquistou um torneio. Mas existe muito trabalho que não é visível.

Ser treinador não é apenas estar presente nos jogos e preparar estratégias. Há análise de demos, estudo dos adversários, preparação dos treinos, identificação de erros e procura constante de soluções para melhorar a equipa. São muitas horas de trabalho, mesmo fora do servidor.

Existe também a componente humana. Gerir diferentes personalidades, manter os jogadores motivados nos momentos difíceis e garantir que todos estão alinhados com os mesmos objetivos é um desafio enorme.

Um dos maiores sacrifícios é o tempo. Os horários nem sempre são convencionais, muitas vezes temos de abdicar da vida pessoal e existe uma pressão constante para apresentar resultados.

Nem sempre o trabalho realizado se traduz imediatamente em vitórias. Os resultados são apenas a parte visível de um processo muito maior, construído com dedicação, trabalho e aprendizagem contínua.

No final, acho que é importante perceber que os resultados são apenas a parte visível de um processo muito maior. Há muito trabalho, dedicação e aprendizagem por trás de cada equipa competitiva, e é isso que acaba por fazer a diferença a longo prazo."

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